quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A RAPOSA E A UVA

Se a raposa
despreza as uvas,
por muito amadas -
será uma fuga
ou duas sonatas?

Estranha dança..
Se uma recua
na melodia,
a outra avança.

Ao fim do dia
Entre fugatos
e ricercares
como a falares
entre olhares
e esperanças
nunca conseguem
na dança
se tocar.

Da capo e coda...
Silêncio!
Será que enfim
teremos
uma boa foda?


sexta-feira, 1 de junho de 2018

BELEZA EXTERIOR

TRÊS AFORISMOS POÉTICOS SOBRE A BELEZA EXTERIOR

Um belo par de seios
me alegra mais
do que as quatro virtudes
cardeais.

Mais vale levantar
a bunda
do que questões
muito profundas.

Quando a ninfeta
se exalta
algo se enleva
mas não é a alma.

*

E se diante de tal sabedoria
ocorrer alguma objeção
lembrai-vos aquela gostosa
cujo decote coração

vistes semana passada
quando meditabundo pensaste,
qual se fora reencarnado
o grande e lusitano vate:

Tudo vale a pena
quando a raba
não é pequena!"


segunda-feira, 21 de maio de 2018

IMAGENS

Votivas peregrinas, naus singrando
em mares de vivências melancólicas;
sóis roxos, ares diáfanos volando
em torno a colunatas de memória -

eis a mente que ergue e destroça. Puras,
esculpidas pelo interior cinzel
se alteiam abóbadas de vida crua
como os braços de Atlas sustentam o céu.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

ZELENKA, CANÔNICO

Há poucas coisas na vida que me alegram mais do que revisões de velhas verdades. Sendo mais vocacionado para a análise do que para a polêmica, costumo preferir, ainda assim, aqueles resultados teóricos mais desconcertantes: preconceitos antigos que se esbatem, novos parâmetros sendo erigidos, descobertas e reviravoltas históricas borbulhando, revisionismos sendo fundados em sólidas razões - essas coisas me causam indiscutível fascínio. No campo das artes, mudanças drásticas ocorrem também. É verdade que, há muito, já ultrapassamos a era dos critérios claramente definidos em matéria de gosto, donde se imaginaria a velocíssima mudança nas hélices da estética, parafraseando um verso moral de Murilo Mendes.

Não obstante esse aceleramento geral, há de se ter em conta que o Cânone Ocidental - com maiúscula solene - modifica-se lentamente. Os adversários do cânone, e eles são muitos, tendem a depreciá-lo como sendo marcado por inequívoco elitismo; frequentemente o relativizam pelas condições históricas e socioeconômicas das preferências estéticas subjetivas. Mas, aceitando-o tal como é, nele são incomuns as inclusões contemporâneas, e mais raras ainda as inclusões de mestres olvidados, cujas obras são redescobertas decorridos séculos após suas mortes.
Esse caso raro será o destino póstumo de Jan Dismas Zelenka (1679-1745). Nascido em um cantão da Boêmia, filho de família numerosa, Zelenka recebeu educação musical de berço, entre os jesuítas do colégio Clementinum, em Praga. Foi alçado a músico da corte de Dresden, integrante da Hofkapelle, a título de contrabaixista e logo compositor, com pouco mais que vinte anos, através da recomendação de antigo patrono, deste modo iniciando sua participação criativa na vida musical da cidade. Em 1716 viajará a Viena para continuar sua educação musical sob tutela de J.J.Fux. Em 1719, ele retorna a Dresden, autor de um conjunto de peças de sólida e original feição. Alguns anos depois, irá escrever uma pequena sucessão de importantes peças seculares, entre as quais a notabilíssima Sinfonia a 8 concertanti em lá menor (ZWV 189), onde se enxergam os traços que tão perfeitamente lhe caracterizam a música sacra da fase final: contraponto denso, apreço pelo ritmo ágil, quase frenético, elisões rítmicas, preferência pela textura dramática, cascatas ascendentes e descendentes de semicolcheias, intrincados padrões de resposta-contra-resposta (no YouTube se encontra uma gravação, realizada pelo grupo belga de música antiga Il Fondamento, em boa qualidade). Pode-se dizer que estes traços fundamentais sempre estiveram presentes em toda a obra do tcheco. Como sublinha o musicólogo Wolfgang Horn(1), as árias das primeiras peças de Zelenka já trazem estes mesmos elementos, a exemplo da Huc Palmas Deferte, do Melodrama de São Wenceslau (ZWV 175) e da ária inicial de Deus Dux Fortissime, datada de 1716, portanto escrita anteriormente à tutela de J.J.Fux. De minha parte, noto que os duetos das missas têm claras semelhanças estruturais com o dueto presente na Deus Dux, no entrelaçamento das vozes nas repetições sucessivas do mesmo motivo melódico - compare-se, por exemplo, ao Gloria in Excelsis Deo da Missa Votiva (ZWV 17) (2).

Quanto às vicissitudes biográficas, não se deve retratar Zelenka como gênio incompreendido por mecenas obtusos. A ambiência musical de Dresden era excelente e favorecia a eclosão do seu talento. Encontra-se um retrato abrangente e detalhado da dinâmica musical da corte no estudo de Janice B.Stockigt The Court of Saxony-Dresden (3). A corte de Dresden estava, à época, sumamente provida de bons músicos. E não apenas isso. Também havia copistas de manuscritos e partituras, de acordo com o gosto das gerações de príncipes-eleitores, pendendo para a França e Itália, especialmente. Os próprios detentores da linhagem real eram músicos competentes, e não menos o eram os compositores da corte, entre os quais J.A.Hasse e J.G.Heinichen. O elevado nível da execução orquestral impressionara a J.J. Quantz, talvez o maior flautista de todos os tempos. Não era incomum que os funcionários de Dresden viajassem para outras metrópoles com o intuito de aprofundar os seus estudos musicais (é o caso de J.G.Pisendel, que se tornaria aluno de Vivaldi; deste convívio frutífero, trouxe Pisendel inúmeras cópias de peças de Vivaldi e outros mestres italianos, inspirando a este, em contrapartida, seis famosos concertos para violino). Portanto, muito distante estava Dresden da atmosfera provinciana que Bach enfrentaria em Leipzig, na árdua tarefa de pôr o seu gênio à serviço de coro e orquestra medíocres.
De volta de Viena, após o falecimento de J.G.Heinichen, Zelenka ficaria bastante desapontado com sua exclusão da nomeação oficial ao cargo de Kapellmeister – função para a qual ele já devotava parte de suas energias, informalmente, nos anos de doença de Heinichen. Esse posto será dado a J.A.Hasse, uma espécie de celebridade artística do período, por razões compreensivas. J.A.Hasse, com efeito, era o mais famoso operista da época, e a corte retomará tal gosto. Malgrado a amargura crescente, Zelenka, no entanto, não deixará de escrever com regularidade. É justamente para si mesmo que se dedicará a compor as seis grandes missas finais (missas ultimae), que passam, com justa razão, por suas maiores realizações. Essas peças máximas, demonstração de devoção e engenho artístico raramente ultrapassado, precisarão aguardar mais de dois séculos pela première. Concernente às opiniões dos coevos, testemunha-se a alta estima que lhe tinha o maior dos compositores barrocos, J.S.Bach, também ele destinado a ter boa parte de sua obra esquecida, até a gloriosa redescoberta por Mendelssohn, em meados do século XIX. (4)

As razões deste esquecimento parecem-me residir em três fatores centrais: (a) a abordagem diferente da arte no período barroco (b) a ausência de, por assim dizer, um cuidado museológico com as obras de arte (c) a contextura polifônica muito densa, antípoda das preferências estilísticas do classicismo, que colocava Zelenka e Bach em delicada posição. Afora certas incursões de Smetana, mais por patriotismo que por congenialidade, Zelenka será o ilustre gênio desconhecido do barroco europeu até os anos 1950, 60 e, sobretudo, até a seminal gravação das sonatas-trio pelo famoso oboísta Heinz Holliger, nos anos 70.

As dificílimas sonatas-trio são, provavelmente, as maiores peças do gênero. Foi através delas, que um compositor eminentemente sacro e vocal como Zelenka foi redescoberto. Desde então, cresce pelos quatro cantos do mundo o interesse em desencavar-lhe os manuscritos e submetê-los a rigoroso escrutínio musicológico.

Mas, será a Missa o veículo principal da expressão artística deste gênio. Lembro que a Missa é uma estrutura musical litúrgica dividida, usualmente, em Kyrie/Gloria/Credo/Sanctus/Agnus Dei. Das mais imponentes criações musicais são algumas missas, da antiquíssima missa da Ars Nova, a Messe du Sacre, até a Missa Syllabica de Arvo Pärt, a tradição atravessa as missas de Palestrina, obras-primas de uma contra-reforma católica passando pela maior de todas – a Missa em Si, do luterano J.S.Bach – pelas missas felizes de Haydn e Mozart, clássicas, pelo enorme hino humanístico que é a Missa Solemnis, de Beethoven, pelas extraordinárias Missa em Mi bemol Maior de Schubert, pela originalíssima Missa Glagolítica, de Janácek, indo até as três missas sinfônicas de Anton Bruckner, e além.
As grandes missas finais de Zelenka são inconfundíveis, sínteses estilísticas perfeitas de toda a sua obra. Para dar uma idéia adequada, seria necessário dedicar um artigo para cada uma delas. As magníficas Missa dei Filli, Missa dei Sanctissima Trinitate, Missa Votiva são cumes da música sacra em todos os tempos, e inscrevem Jan Dimas Zelenka entre os grandes compositores da história. O Cânone Ocidental – com maiúscula solene – acolhe Zelenka como novo luminar, e temos, todos nós, a felicidade de poder acompanhar a sua entrada. Como canta o coro no final do Gloria, Cum Sancto Spiritu. Amem.


domingo, 29 de abril de 2018

FELICIDADE

A N.

Minha felicidade
não repousa
na eternidade.

Como as aves ela passa
migrando em estações
determinadas.

Ela é a tela
e você a aquarela;
o círculo
e você o ponto
infinito.
Ela é o violino
e você o hino
que ele toca.
Ela é o caminho
e você a saída,
a porta
pela qual minha felicidade
passa
como as aves
migrando em estações
determinadas.

Por isso sorria
para que eu também
possa sorrir.






terça-feira, 24 de abril de 2018

CRIANÇA

Brotado do chão dos peitos arfantes
ao sol clamoroso e ardente, andaste
nos vales nascentes, titubeante,
quase fulgor desconhecido, haste

de lírio radioso. Como se fosses
- quando a minha alma se punha sóbria -
das primeira dor as doces cores
que tingiste sobre a palma da memória

levemente esgarçada, não obstante
atada à brancura inaugural
que as pupilas do poeta pervade

tornando-as assim a uma só questão:
como ser esta criança original?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

MC Carol: uma análise literária (1)

Recentemente, o mundo político foi surpreendido pela notícia de que MC Carol irá se candidatar ao cargo de deputada estadual pelo PSOL-RJ. Estamos muito felizes em ver que o partido está escolhendo seus quadros políticos com seriedade e coerência ideológica. Autora de diversos clássicos da música brasileira, que se ombreiam às produções de Villa-Lobos, Hekel Tavares e Carlos Gomes, resolvemos empreender breve análise literária de algumas de suas obras.

Logo de início, destacamos que Mc Carol tem sério trabalho em favor da educação das crianças. Como sabemos, essa é uma das pautas mais importantes para a esquerda. De Paulo Freire a Cristóvam Buarque, a educação esteve, desde sempre, à frente das preocupações dessa corrente política. 

Com a música "PIROCA NA XOTA", já podemos ter um vislumbre do modelo pedagógico a ser defendido pela eminente artista.

https://www.youtube.com/watch?v=tme9sk86jqA

Após a repetição do título, que traz a assonância interna ao verso "piroca na xota" - OTA-OTA, usança habitual na poesia clássica, a autora começa a descrever o aprendizado escolar: "Não me ensinaram isso/ aprendi na escola/ piroca na xota". E depois segue: "na hora do recreio/ eu desci na sua piroca"; e ainda, "era dever de casa/ trabalho de escola/ piroca na xota"; 

Como se pode facilmente perceber, o Eu-lírico revela-se, a um só tempo, capaz de dominar o conteúdo escolar nominal - as disciplinas de português, matemática, geografia, história, etc. - e ainda transcender as limitações da educação burguesa, mecanizada, que preconiza exclusivamente o aprendizado de tais disciplinas, pois "minha nota era dez/ ainda dava cola/ piroca na xota". Como excelente aluna, o Eu-lírico supera o modelo ao absorver importante lição da educação sexual: "piroca na xota", verso crucial a se repetir durante toda a obra. O temário da educação sexual é fundamental a uma pedagogia que não oprima o estudante. A libertação passa, necessariamente, pelo esclarecimento sobre os papéis sexuais e de gênero, e as vivências sexuais a se darem no âmbito dos estabelecimentos de ensino. Devemos, porém, salientar que, não obstante a visão progressista, ainda existe certa limitação ao ethos revolucionário-pedagógico, consubstanciada no próprio verso-título: "piroca na xota" remete a relações de cunho heteronormativo. Com isso, a bancada do PSOL não ficará inteiramente confortável, quiçá preferindo substituí-lo pela redação: "piroca no cu", mais ambígua, a ser interpretada também na clave da homossexualidade.

Mas, não se trata de um estímulo abstrato às pirocadas. A coisa é deveras concreta. Experiências práticas, singulares desse aprendizado se dão: "no pátio do brizolão/ eu desci na sua piroca", unindo o nome do colégio, homenagem ao Lionel Brizola, com o ato de sentar na piroca (que, no entanto, não era a dele, tendo apenas o nome do colégio). Assim, se sucedem muitos casos similares: "no pátio do aurelino/ eu desci na sua piroca"; "no pátio do liceu/ eu desci na sua piroca"; "no pátio do Leopoldo franco/ eu desci na sua piroca"...

A sucessão de colégios é colonizada educacionalmente pelo Eu-lírico. Percebam como é dado à mulher o protagonismo. É ela quem desce na piroca. Não é a piroca que nela sobe. Ademais, desce em pirocas de número aparentemente indefinido, não havendo alusão a um sujeito específico a portá-las (pode ser você, caro leitor, ou seu irmão, ou seu pai, ou seu filho). Pode ser até mesmo eu.

Nos próximos capítulos, continuaremos nossa análise ao mostrar como, além de falar de educação, MC Carol possui idéias valiosas sobre o aquecimento global, liberdade religiosa, estatuto da mulher na sociedade, violência doméstica, entre outros assuntos candentes. 

Como os militantes do PSOL e os alunos diante das professoras dizem: MC Carol, PRESENTE! Ainda que sentada numa piroca.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

1.

Caminha sem se apressar,
o homem que a grande dor
a desfia à beira-mar.
Na areia, ele mira as pedras
onde corais se enamoram
das ondas que os vem beijar.

E andando, vai por aí
como se íntima procela
lhe transportasse dali
como a um barco sem remo.
O pranto, vela por dentro,
abre a dor fora de si.

O muito chorar o mar
na areia, branco disfarce,
Fá-lo, tal senda mais ar,
ser de velas e de mastros
para ao corpo da sereia
ele ir.. andar.. rumar...











quinta-feira, 12 de abril de 2018

Momento nº 1

MOMENTO nº1

Ondas escuras avolumaram-se
na orla de uma praia branca e deserta.
Eram verdes, verdes os olhos vivos
da moça estirada na areia contemplando
as ondas todas, solitária e também ela
deserta.
Aves redutíveis à imaginação
cruzaram. Celestes setas
perfurando o azul de éter

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Minuciosa ou vária,
a mão te invade e toma,
como o dorsal das águas
ao argonauta doma,

a tua pele-pétala,
na palma feita aroma;
tem das manhãs felizes
a redenção das sombras,

é como a aleluia
após longo calvário,
ou a dança da luz
desposta num sacrário;

A tua pele-pétala
nas reentrâncias lunares
provoca-me astuciosa
delineando esgares

no rosto delicado
quando, cresces e míngua,
lua-corpo extasiado
às carícias da língua




segunda-feira, 2 de abril de 2018

NOITES

Ó fugidias sensações noturnas,
siderações, nostálgicas dolências
do imenso mar constelado, da espuma
a que apelidamos consciência,

Ó antecipamentos vãos... ó claros
relampejares das fontes diuturnas
por que me têm, à noite, acossado,
por que me espreitam, quais feras ocultas?

Na hora morta em sono combalido
quando o querer, mais suave do que a seda,
é o elastério d´alma esmorecido,

eis que me vêm as sensações noturnas:
panteras radiosamente atraindo
com a elegância das formas escuras.








domingo, 1 de abril de 2018

JARDIM SUSPENSO

Havia um jardim suspenso,
mais antigo que o Céu.
Nele, os anjos floresciam
como flores gordas de mel.

As rosas rubras silvestres
despetalavam auroras.
Novos dias eram abelhas
polinizando as horas,

rio adentro escorrendo,
águas-vilas sinuosas,
com peixes nadando o tempo,
com portas dentro de portas.

Animais de geometria
impossível à humana vista
farfalhavam tenras asas,
novo mundo aparecia.

De mil Eras era o centro,
o maravilhoso festim.
No Absoluto, suspenso
Havia um Jardim.














.







sexta-feira, 30 de março de 2018

O ÉTER

E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. (Apocalipse 5;1)

Pelos marecháis da guerra
Pela Bomba de Hiroshima
Pelos gemidos da terra
Calcinada e canina
Rasgada e deserta:

O Sanctum!

Pelos músculos trincados
Pelas órbitas vazadas
Pelos corpos destroçados
Pelas mandíbulas gastas
De Moloch ensanguentado:

O Sanctum!

Pelos vales apagados
Pela flor contagiosa
Pelo homem exumado
Como o sangue na aorta,
Subitamente estancado:

O Sanctum!

Pelas tísicas crianças
Arrancando os próprios braços
Pelos olhares de âmbar
Pelos berros engolfados
Engolidos nas gargantas:

O Sanctum!

Pelas vespas atômicas
Pelo lixo radioativo.
Pelas cartas anônimas
Nas garrafas de irídio
Pelos mares de Ômega.

O Sanctum!

Sol. Lua. Dia. Noite.Vida. Morte. Um.

Três Círculos.
Três Chaves.
Três Luzes.

O Sanctum!



quinta-feira, 29 de março de 2018

POEMA PARA O HERÓI MORTO

Quando toldarem os olhos dos antigos
e a rouca voz do vate emudecer,
quando soprar o vento dos elísios
há de morrer o herói, há de morrer.

Há de partir por muitos celebrado:
entre as mulheres deixará seus filhos,
em cada porto deste mundo vasto
onde ouvirão, nas tardes, uns suspiros.

As potestades em galante coorte
ante o ataúde negro deporão
as tristes lágrimas, mais sóbrias flores
pelo altaneiro e jubiloso irmão.

A ele, os bons levantarão estátuas;
e os copos cheios e as canções de guerra
serão erguidos qual se fossem armas,
as homenagens últimas da terra.

Pelo aristoi de honra tão sublime
Até os deuses entrarão de luto
De cujos feitos imitou insigne
o que era grande, o que era belo - e puro.

Cosendo a teia de ecos e memórias,
o seu destino os velhos passarão
à mancebia ávida de glórias,
que o imarcescível nome evocarão.

Pois se toldarem os olhos dos antigos
e a rouca voz do vate emudecer
quando soprar o vento dos elísios
há de viver o herói quando morrer.

sábado, 24 de março de 2018

SOL MÍSTICO

O sol veio. Rasgou-se o véu antigo
do tédio que, há muito, companheiro
se fizera de noites e de luas,
no rude embotamento do desejo.

O sol veio. E alto, o alado disco
luziu o grego solo e o vale etrusco.
Fez dos trigais mais louros e mais cheios.
Ao viajante o mar tornou seguro.

O sol veio. Mas, quase diminuto
veio alegremente pressentido.
Guardado e inocente, era o presente
(terna) e eternamente amanhecido.

O sol veio.