domingo, 29 de abril de 2018

FELICIDADE

A N.

Minha felicidade
não repousa
na eternidade.

Como as aves ela passa
migrando em estações
determinadas.

Ela é a tela
e você a aquarela;
o círculo
e você o ponto
infinito.
Ela é o violino
e você o hino
que ele toca.
Ela é o caminho
e você a saída,
a porta
pela qual minha felicidade
passa
como as aves
migrando em estações
determinadas.

Por isso sorria
para que eu também
possa sorrir.






terça-feira, 24 de abril de 2018

CRIANÇA

Brotado do chão dos peitos arfantes
ao sol clamoroso e ardente, andaste
nos vales nascentes, titubeante,
quase fulgor desconhecido, haste

de lírio radioso. Como se fosses
- quando a minha alma se punha sóbria -
das primeira dor as doces cores
que tingiste sobre a palma da memória

levemente esgarçada, não obstante
atada à brancura inaugural
que as pupilas do poeta pervade

tornando-as assim a uma só questão:
como ser esta criança original?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

MC Carol: uma análise literária (1)

Recentemente, o mundo político foi surpreendido pela notícia de que MC Carol irá se candidatar ao cargo de deputada estadual pelo PSOL-RJ. Estamos muito felizes em ver que o partido está escolhendo seus quadros políticos com seriedade e coerência ideológica. Autora de diversos clássicos da música brasileira, que se ombreiam às produções de Villa-Lobos, Hekel Tavares e Carlos Gomes, resolvemos empreender breve análise literária de algumas de suas obras.

Logo de início, destacamos que Mc Carol tem sério trabalho em favor da educação das crianças. Como sabemos, essa é uma das pautas mais importantes para a esquerda. De Paulo Freire a Cristóvam Buarque, a educação esteve, desde sempre, à frente das preocupações dessa corrente política. 

Com a música "PIROCA NA XOTA", já podemos ter um vislumbre do modelo pedagógico a ser defendido pela eminente artista.

https://www.youtube.com/watch?v=tme9sk86jqA

Após a repetição do título, que traz a assonância interna ao verso "piroca na xota" - OTA-OTA, usança habitual na poesia clássica, a autora começa a descrever o aprendizado escolar: "Não me ensinaram isso/ aprendi na escola/ piroca na xota". E depois segue: "na hora do recreio/ eu desci na sua piroca"; e ainda, "era dever de casa/ trabalho de escola/ piroca na xota"; 

Como se pode facilmente perceber, o Eu-lírico revela-se, a um só tempo, capaz de dominar o conteúdo escolar nominal - as disciplinas de português, matemática, geografia, história, etc. - e ainda transcender as limitações da educação burguesa, mecanizada, que preconiza exclusivamente o aprendizado de tais disciplinas, pois "minha nota era dez/ ainda dava cola/ piroca na xota". Como excelente aluna, o Eu-lírico supera o modelo ao absorver importante lição da educação sexual: "piroca na xota", verso crucial a se repetir durante toda a obra. O temário da educação sexual é fundamental a uma pedagogia que não oprima o estudante. A libertação passa, necessariamente, pelo esclarecimento sobre os papéis sexuais e de gênero, e as vivências sexuais a se darem no âmbito dos estabelecimentos de ensino. Devemos, porém, salientar que, não obstante a visão progressista, ainda existe certa limitação ao ethos revolucionário-pedagógico, consubstanciada no próprio verso-título: "piroca na xota" remete a relações de cunho heteronormativo. Com isso, a bancada do PSOL não ficará inteiramente confortável, quiçá preferindo substituí-lo pela redação: "piroca no cu", mais ambígua, a ser interpretada também na clave da homossexualidade.

Mas, não se trata de um estímulo abstrato às pirocadas. A coisa é deveras concreta. Experiências práticas, singulares desse aprendizado se dão: "no pátio do brizolão/ eu desci na sua piroca", unindo o nome do colégio, homenagem ao Lionel Brizola, com o ato de sentar na piroca (que, no entanto, não era a dele, tendo apenas o nome do colégio). Assim, se sucedem muitos casos similares: "no pátio do aurelino/ eu desci na sua piroca"; "no pátio do liceu/ eu desci na sua piroca"; "no pátio do Leopoldo franco/ eu desci na sua piroca"...

A sucessão de colégios é colonizada educacionalmente pelo Eu-lírico. Percebam como é dado à mulher o protagonismo. É ela quem desce na piroca. Não é a piroca que nela sobe. Ademais, desce em pirocas de número aparentemente indefinido, não havendo alusão a um sujeito específico a portá-las (pode ser você, caro leitor, ou seu irmão, ou seu pai, ou seu filho). Pode ser até mesmo eu.

Nos próximos capítulos, continuaremos nossa análise ao mostrar como, além de falar de educação, MC Carol possui idéias valiosas sobre o aquecimento global, liberdade religiosa, estatuto da mulher na sociedade, violência doméstica, entre outros assuntos candentes. 

Como os militantes do PSOL e os alunos diante das professoras dizem: MC Carol, PRESENTE! Ainda que sentada numa piroca.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

1.

Caminha sem se apressar,
o homem que a grande dor
a desfia à beira-mar.
Na areia, ele mira as pedras
onde corais se enamoram
das ondas que os vem beijar.

E andando, vai por aí
como se íntima procela
lhe transportasse dali
como a um barco sem remo.
O pranto, vela por dentro,
abre a dor fora de si.

O muito chorar o mar
na areia, branco disfarce,
Fá-lo, tal senda mais ar,
ser de velas e de mastros
para ao corpo da sereia
ele ir.. andar.. rumar...











quinta-feira, 12 de abril de 2018

Momento nº 1

MOMENTO nº1

Ondas escuras avolumaram-se
na orla de uma praia branca e deserta.
Eram verdes, verdes os olhos vivos
da moça estirada na areia contemplando
as ondas todas, solitária e também ela
deserta.
Aves redutíveis à imaginação
cruzaram. Celestes setas
perfurando o azul de éter

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Minuciosa ou vária,
a mão te invade e toma,
como o dorsal das águas
ao argonauta doma,

a tua pele-pétala,
na palma feita aroma;
tem das manhãs felizes
a redenção das sombras,

é como a aleluia
após longo calvário,
ou a dança da luz
desposta num sacrário;

A tua pele-pétala
nas reentrâncias lunares
provoca-me astuciosa
delineando esgares

no rosto delicado
quando, cresces e míngua,
lua-corpo extasiado
às carícias da língua




segunda-feira, 2 de abril de 2018

NOITES

Ó fugidias sensações noturnas,
siderações, nostálgicas dolências
do imenso mar constelado, da espuma
a que apelidamos consciência,

Ó antecipamentos vãos... ó claros
relampejares das fontes diuturnas
por que me têm, à noite, acossado,
por que me espreitam, quais feras ocultas?

Na hora morta em sono combalido
quando o querer, mais suave do que a seda,
é o elastério d´alma esmorecido,

eis que me vêm as sensações noturnas:
panteras radiosamente atraindo
com a elegância das formas escuras.








domingo, 1 de abril de 2018

JARDIM SUSPENSO

Havia um jardim suspenso,
mais antigo que o Céu.
Nele, os anjos floresciam
como flores gordas de mel.

As rosas rubras silvestres
despetalavam auroras.
Novos dias eram abelhas
polinizando as horas,

rio adentro escorrendo,
águas-vilas sinuosas,
com peixes nadando o tempo,
com portas dentro de portas.

Animais de geometria
impossível à humana vista
farfalhavam tenras asas,
novo mundo aparecia.

De mil Eras era o centro,
o maravilhoso festim.
No Absoluto, suspenso
Havia um Jardim.














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