sexta-feira, 20 de abril de 2018

MC Carol: uma análise literária (1)

Recentemente, o mundo político foi surpreendido pela notícia de que MC Carol irá se candidatar ao cargo de deputada estadual pelo PSOL-RJ. Estamos muito felizes em ver que o partido está escolhendo seus quadros políticos com seriedade e coerência ideológica. Autora de diversos clássicos da música brasileira, que se ombreiam às produções de Villa-Lobos, Hekel Tavares e Carlos Gomes, resolvemos empreender breve análise literária de algumas de suas obras.

Logo de início, destacamos que Mc Carol tem sério trabalho em favor da educação das crianças. Como sabemos, essa é uma das pautas mais importantes para a esquerda. De Paulo Freire a Cristóvam Buarque, a educação esteve, desde sempre, à frente das preocupações dessa corrente política. 

Com a música "PIROCA NA XOTA", já podemos ter um vislumbre do modelo pedagógico a ser defendido pela eminente artista.

https://www.youtube.com/watch?v=tme9sk86jqA

Após a repetição do título, que traz a assonância interna ao verso "piroca na xota" - OTA-OTA, usança habitual na poesia clássica, a autora começa a descrever o aprendizado escolar: "Não me ensinaram isso/ aprendi na escola/ piroca na xota". E depois segue: "na hora do recreio/ eu desci na sua piroca"; e ainda, "era dever de casa/ trabalho de escola/ piroca na xota"; 

Como se pode facilmente perceber, o Eu-lírico revela-se, a um só tempo, capaz de dominar o conteúdo escolar nominal - as disciplinas de português, matemática, geografia, história, etc. - e ainda transcender as limitações da educação burguesa, mecanizada, que preconiza exclusivamente o aprendizado de tais disciplinas, pois "minha nota era dez/ ainda dava cola/ piroca na xota". Como excelente aluna, o Eu-lírico supera o modelo ao absorver importante lição da educação sexual: "piroca na xota", verso crucial a se repetir durante toda a obra. O temário da educação sexual é fundamental a uma pedagogia que não oprima o estudante. A libertação passa, necessariamente, pelo esclarecimento sobre os papéis sexuais e de gênero, e as vivências sexuais a se darem no âmbito dos estabelecimentos de ensino. Devemos, porém, salientar que, não obstante a visão progressista, ainda existe certa limitação ao ethos revolucionário-pedagógico, consubstanciada no próprio verso-título: "piroca na xota" remete a relações de cunho heteronormativo. Com isso, a bancada do PSOL não ficará inteiramente confortável, quiçá preferindo substituí-lo pela redação: "piroca no cu", mais ambígua, a ser interpretada também na clave da homossexualidade.

Mas, não se trata de um estímulo abstrato às pirocadas. A coisa é deveras concreta. Experiências práticas, singulares desse aprendizado se dão: "no pátio do brizolão/ eu desci na sua piroca", unindo o nome do colégio, homenagem ao Lionel Brizola, com o ato de sentar na piroca (que, no entanto, não era a dele, tendo apenas o nome do colégio). Assim, se sucedem muitos casos similares: "no pátio do aurelino/ eu desci na sua piroca"; "no pátio do liceu/ eu desci na sua piroca"; "no pátio do Leopoldo franco/ eu desci na sua piroca"...

A sucessão de colégios é colonizada educacionalmente pelo Eu-lírico. Percebam como é dado à mulher o protagonismo. É ela quem desce na piroca. Não é a piroca que nela sobe. Ademais, desce em pirocas de número aparentemente indefinido, não havendo alusão a um sujeito específico a portá-las (pode ser você, caro leitor, ou seu irmão, ou seu pai, ou seu filho). Pode ser até mesmo eu.

Nos próximos capítulos, continuaremos nossa análise ao mostrar como, além de falar de educação, MC Carol possui idéias valiosas sobre o aquecimento global, liberdade religiosa, estatuto da mulher na sociedade, violência doméstica, entre outros assuntos candentes. 

Como os militantes do PSOL e os alunos diante das professoras dizem: MC Carol, PRESENTE! Ainda que sentada numa piroca.