quarta-feira, 18 de abril de 2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

1.

Caminha sem se apressar,
o homem que a grande dor
a desfia à beira-mar.
Na areia, ele mira as pedras
onde corais se enamoram
das ondas que os vem beijar.

E andando, vai por aí
como se íntima procela
lhe transportasse dali
como a um barco sem remo.
O pranto, vela por dentro,
abre a dor fora de si.

O muito chorar o mar
na areia, branco disfarce,
Fá-lo, tal senda mais ar,
ser de velas e de mastros
para ao corpo da sereia
ele ir.. andar.. rumar...











quinta-feira, 12 de abril de 2018

Momento nº 1

MOMENTO nº1

Ondas escuras avolumaram-se
na orla de uma praia branca e deserta.
Eram verdes, verdes os olhos vivos
da moça estirada na areia contemplando
as ondas todas, solitária e também ela
deserta.
Aves redutíveis à imaginação
cruzaram. Celestes setas
perfurando o azul de éter

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Minuciosa ou vária,
a mão te invade e toma,
como o dorsal das águas
ao argonauta doma,

a tua pele-pétala,
na palma feita aroma;
tem das manhãs felizes
a redenção das sombras,

é como a aleluia
após longo calvário,
ou a dança da luz
desposta num sacrário;

A tua pele-pétala
nas reentrâncias lunares
provoca-me astuciosa
delineando esgares

no rosto delicado
quando, cresces e míngua,
lua-corpo extasiado
às carícias da língua




segunda-feira, 2 de abril de 2018

NOITES

Ó fugidias sensações noturnas,
siderações, nostálgicas dolências
do imenso mar constelado, da espuma
a que apelidamos consciência,

Ó antecipamentos vãos... ó claros
relampejares das fontes diuturnas
por que me têm, à noite, acossado,
por que me espreitam, quais feras ocultas?

Na hora morta em sono combalido
quando o querer, mais suave do que a seda,
é o elastério d´alma esmorecido,

eis que me vêm as sensações noturnas:
panteras radiosamente atraindo
com a elegância das formas escuras.








domingo, 1 de abril de 2018

JARDIM SUSPENSO

Havia um jardim suspenso,
mais antigo que o Céu.
Nele, os anjos floresciam
como flores gordas de mel.

As rosas rubras silvestres
despetalavam auroras.
Novos dias eram abelhas
polinizando as horas,

rio adentro escorrendo,
águas-vilas sinuosas,
com peixes nadando o tempo,
com portas dentro de portas.

Animais de geometria
impossível à humana vista
farfalhavam tenras asas,
novo mundo aparecia.

De mil Eras era o centro,
o maravilhoso festim.
No Absoluto, suspenso
Havia um Jardim.














.







sexta-feira, 30 de março de 2018

O ÉTER

E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. (Apocalipse 5;1)

Pelos marecháis da guerra
Pela Bomba de Hiroshima
Pelos gemidos da terra
Calcinada e canina
Rasgada e deserta:

O Sanctum!

Pelos músculos trincados
Pelas órbitas vazadas
Pelos corpos destroçados
Pelas mandíbulas gastas
De Moloch ensanguentado:

O Sanctum!

Pelos vales apagados
Pela flor contagiosa
Pelo homem exumado
Como o sangue na aorta,
Subitamente estancado:

O Sanctum!

Pelas tísicas crianças
Arrancando os próprios braços
Pelos olhares de âmbar
Pelos berros engolfados
Engolidos nas gargantas:

O Sanctum!

Pelas vespas atômicas
Pelo lixo radioativo.
Pelas cartas anônimas
Nas garrafas de irídio
Pelos mares de Ômega.

O Sanctum!

Sol. Lua. Dia. Noite.Vida. Morte. Um.

Três Círculos.
Três Chaves.
Três Luzes.

O Sanctum!