sábado, 9 de julho de 2016

Começo

I

Horas estenderam horas
No parapeito do tédio.
Se limpas ou sujas? Que importa!
São mortalhas em um cemitério.

Algumas mortalhas azuis
Lembram roupas de criança.
Vestiram um menino profundo
De fantasmagórica infância.

Outras de verde pungido
Tísico, raquítico,
Cobriram o adolescente
Da puberdade sem grito.

São mais soturnas as novas,
De preto transido, fechado.
Ocultam o solene ataúde
Do jovem Apolo arcaico.

II

Livros não precisei ler
Para saber tudo o que sou.
Nada havia por dizer.
Toda palavra ecoou.

Sem ao Logos ascultar
Vou recompondo o mistério.
Na borda extrema de tudo
Teço a geometria dos ermos.

Nisso talvez precise
Novas peças no meu deserto.
Para fechar o tamgram,
Encaixo o triângulo do seu sexo.

Mas, saiba: aqui não há jardineiro,
Só carcaças entrechocadas.
Na cega mecânica dos eixos
A alma é somente a graxa.

III

Nunca fui antena do mundo
Como queria Ezra Pound.
O mundo que sintonize suas dores
E não as rime por mim.

Quero ser ilha, não arquipélago,
Restituir Donne ao silêncio.
Os sinos que bateram por ele
Nunca dobrarão por você.

Por isso, seja dura. E muda.
- autocontida chama.
Quem sonha o sonho universal
Nunca descansa na cama.

Que a minha luz me ilumine
Ou me afogue no breu.
E, se ainda me quer dar a mão
Bata à porta. "Ding, dong": sou eu.