sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A arte da memória

Dedicado a Dídimo Matos


1.


Meu amigo Dídimo Matos, começo esse curto ensaio endereçando minha fala a você. Não vou deixá-lo de fora dele, já que me pediu tantas vezes que o escrevesse. Sei que muito aprecia a escrita acadêmica, difícil, referendada. Por isso, peço a sua licença para vaguear, rapsodicamente, pela minha própria memória. Falarei da função que ela possui para mim sem pretensões. Quero apenas lembrar... escoar e concentrar a percepção em mim mesmo, nesta fonte de todas as perplexidades - o nosso Eu. Sento-me à frente do computador, sem adornos senão minha capacidade de rememorar fatos e coisas. O mundo dos fatos e das coisas é o meu mundo interno; nele há uma réstia de luz incidindo sobre certas imagens como, por exemplo, a de uma casa. Iluminemos melhor.


2.


Moro em uma casa antiga. Terminada ainda antes do regime pelo esforço conjunto de meu avô, mãe e tios, a morada do capitão Astério possui toda uma história particular. Viu nascerem filhos, viu definharem velhos. Ela viu um ladrãozinho de galinhas tentar roubá-la só para mostrar sua inaptidão. A casa o venceu, o humilhou, ela que, impávida, já era mais antiga do que o ladrão quando ele a tentou violar. 

Lembra-me, esta casa, uma frase de Machado. Carpeaux cita a passagem em um de seus livros. Passando diante de uma casa velha, perguntam a alguma sua personagem se a casa era bonita. O interpelado replica, dizendo "mas ela é velha!". Se é velha, é bonita, não há lugar para dúvidas. Assim também sinto. Vislumbro a beleza insuperável daqueles solares verdadeiramente antigos, de um século, dois séculos, ou das casas-grandes dos engenhos do Nordeste. Em uma delas, o menino Zé Lins foi criado. Cheio de lembranças de sua mocidade, Zé Lins viria depois a se tornar o respeitável José Lins do Rego, autor de uns quantos romances na literatura brasileira. Em Meus Verdes Anos, conta-nos ele como era a vida da gente no tempo do engenho. Como parecia boa a vida daquele tempo! E o homem citadino como eu, de raízes menos fundas, sente a nostalgia de tempo que não viveu, época de cores mais vivas, de sangue revolto, de costumes mais brutos, porém mais sinceros. Uma coisa me atenua a irremediável saudade não vivida: essa casa aqui, onde moro, de cuja janela estou agora a olhar o pé de mangueira que temos no quintal.

Estranhará quem me lê essa fixação por casas. O que preside a escolha de uma casa para começar um texto sobre memória? Não as décadas acumuladas nas portas. Talvez não me creiam, mas escrevo sem planos, sem regras. Sequer estou preocupado com a correção da gramática. Vou escrevendo como quem vai caminhando despreocupado, arrasta os pés pela rua, topa com algum pedregulho. Não me importo. A primeira coisa que me veio a mente foi, honestamente, a casa. E então percebi por quê. Ela se liga mais diretamente à memória, não apenas pelo poder evocativo imantado em si mesma. Ela se liga a memória porque se liga a uma técnica.


3.


A técnica a que me refiro é o Palácio da Memória. Tomar contato com essa técnica foi o primeiro momento em que a memória se tornou, para mim, objeto de atenção cuidadosa. Encontrei a menção em um romance popular, Hannibal, o livro de Thomas Harris. Li-o na adolescência com muito gosto. Acho que todo mundo há de reconhecer o quão bem construído é o personagem do Dr. Hannibal Lecter. Vem-me à fantasia sua figura de contornos nítidos maculada, é verdade, por uma interferência externa: a cara de Anthony Hopkins, cuja atuação impressionante em The Silence of the Lambs lhe valeu os maiores louvores.

Então, imagino o meu Lecter com a cara do Hopkins (nada surpreendente, milhões o vêem assim). Nos livros, Lecter não é apenas o psicopata frio que aterroriza as pessoas. Ele é um homem refinado, culto, interessante. Thomas Harris apresenta a técnica mnemônica de Lecter: o palácio da memória. A técnica, corrijo, não é dele, claro. É uma técnica antiga, cujas raízes remontam a Grécia e a Roma, a Simônides de Ceos, aos retores. Fora também desenvolvida por padres da Igreja a fim de preservar o conhecimento da Antiguidade. Dizem que grandes eruditos bizantinos como Bessarion, escapando das hostes turco-otomanas, levaram consigo bibliotecas inteiras em suas mentes. Não sei se carregam nas tintas em tal descrição, mas gosto de pensar que ela é verdadeira. O poder da memória perfeita, da lembrança inescapável, me fascina. Ocorre-me a seguinte idéia: alguém que lembrasse de tudo seria, em vida, imortal. Não é a mortalidade sentida como um perder-se no tempo? Quase como se morrêssemos porque já estamos sempre morrendo. Alguém cujo tempo interior assemelha-se a um lago autocontido, onde nada passou, nunca passou. Morrer para este homem será um fato tão incompreensivo e inesperado quanto o fenecer de uma orquídea ou a morte súbita de um mosquito espalmado.

Todavia, embora Lecter apresentasse a mesma espantosa capacidade dos medievais, utilizava-a de maneira mais inventiva: para viver. Literalmente, a casa da memória do Dr. era uma casa alicerçada na imaginação: nela ele se abrigava, andava, dormia. A sua fuga era, a princípio, dos outros. Não por medo, afinal, o sociopata pura cujo perfil Harris engravou era imune ao medo. Ele fugia dos outros por enfado, desprezo. Quando estava na cela, ouvindo o grito dos outros condenados, Lecter demonstrava seu espantoso poder. Concentrava-se e o mundo externo desaparecia. Lecter podia passar pelas amplas galerias de seu palácio da memória, onde havia sempre música, quadros, a beleza. Com isso, ele podia melhor suportar o ambiente vil em que se achava. E nisso tinha minha entusiástica aprovação.


4.


A memória também me serviria de escape. Essa é a primeira função. Foi desta leitura de Harris que tive a idéia de cultivá-la. Nunca construí um palácio com as suas rochas. A técnica é difícil, exige o domínio de um complexo sistema associativo de objetos e conteúdos representacionais. Mas, uma vez que sempre tive facilidade em me lembrar de toda sorte de informações, cultivá-la como disciplina consciente não me foi proibitivo. Ao lembrar-me das coisas, as possuo. Ao possuí-las, lembro-me delas. É uma relação recíproca entre lembrança e domínio. Uma relação quase erótica. Mas, a razão específica que me levara primeiramente a cultivá-la não foi erótica, ao contrário, diria que foi regida pelo sentimento da discórdia; Neikós, já ensinava Empédocles, responsável pela repulsão de todas as coisas. Ao pensar em viver de memória orientava-me, inequivocamente, a vontade de me afastar. Assim se demarcava a discórdia existencial com um ambiente que me parecera demasiado limitado. Trazia bem vívido o aforismo de Schopenhauer, segundo o qual a inteligência era inversamente proporcional a capacidade de fazer barulho. Já ouvia ruídos demais. Na memória estava o silêncio, o encontro consigo mesmo, a serenidade. Na memória eu podia pensar no que me apetecia, lembrar-me do mundo histórico, do mundo da arte, das idéias.

Notei, de muito exercitar a memória, que um dos mais impressionantes poderes dessa faculdade revela-se na sua tendência à unidade. Não há surpresa em asserir esse juízo. Ocorre que a percepção não é um julgamento. Podemos facilmente reconhecer a verdade do juízo sem o sentirmos no centro da consciência. Ao se lembrar por horas a fios todos os dias, genuína disciplina ascética da reminiscência, entram em jogo categorias mais nobres: intuição e percepção. A disciplina faz brotar a intuição que dá lugar a afirmação da unidade da memória (que, neste caso, encontra correspondência dialética na unidade da consciência); então, ela se torna experenciável. À semelhança da meditação, a qualidade fenomênica capturada pode atrair de tal modo as forças do espírito que os estados interiores se tornam translúcidos. Essa foi a segunda função da memória que eu descobri para meu uso.

Há de se levar em conta o fato: lembranças puxam outras espontaneamente. Podemos tentar comandá-las, focar a atenção em algum conteúdo representacional. Neste esforço, malogramos muitas vezes. E a raiz do malogro parece-me dada em certa espontaneidade fenomenológica do processo associativo. Há o indomável no lembrar, parente do tigre do insconsciente de que falava Nietzsche. O que nos aparece é consciente, mas não todas as operações as quais, ocasionalmente, furtam-se ao nosso olhar perscrutador. As ligações entre um conteúdo evocado e um outro, entrelaçadas em ramagens retorcidas no terreno do inconsciente, não são pontes sempre seguras. Existem ligações desconhecidas. E também "ligações perigosas", que unem conteúdos a outros, profundos, sepultados em regiões abismais. Os gatilhos que abrem nossa autopercepção a conteúdos inferiores dormitam sob a capa da consciência, conteúdos ancestrais, velhíssimos, poderosos no mover a mente dos homens desde a aurora dos tempos. A memória é, pois, descida aos infernos. Assim como também ascensão aos céus. Eis a terceira função, propriamente hermética, no sentido etimológico.

Os poetas clamavam as Musas a fim de que lhes inspirasse o "entusiasmo". A inspiração mnemônica do aedo, como o demonstra Jean-Pierre Vernant, é um tipo de 'visão', quase uma sorte de clarividência. Ele 'vê' o passado desvelando o ser. Este passado não é apenas um tempo ocorrido há muitos séculos, ele é um tipo de modo de ser como na figuração da era dos heróis. Mas, não é assim com o nosso próprio passado individual, subjetivo? Eu comecei este ensaio rapsódico falando de minha casa, então as recordações se foram organizando, plasmadas pelo intuito de escrevê-lo. Há no passado subjetivo também momentos de deuses e heróis, qualitativamente condicionados, à semelhança do passado das grandes coletividades das quais o poeta se faz porta-voz. A última função da memória que eu sublinho é essa, mais costumeira: recuperar a qualidade da experiência. Ir e voltar por esse caminho - incessante aprendizado. Como foi o verdadeiro sentimento? De onde realmente vieram nossas idéias? Fundamental é a sinceridade em todo o percurso. "Conhece-te a ti mesmo". Não há cumprimento da sabedoria délfica sem conhecer o que fomos e porque nos tormanos o que somos.


5.


Abro de novo a janela. Lembro-me de nova passagem na literatura, dessa vez, biográfica. As últimas palavras de Goethe ordenavam que se abrisse uma janela igual a que tenho ao lado. "Mehr Licht! Mais Luz!". Não sei se havia árvores à vista do gênio. Aqui, as folhas da mangueira douram ao sol da tarde. A árvore, velha como a casa, também é um símbolo. Outras lembranças serão por ela evocadas, outras passarão, até o fim.