quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Autopsicografia


Há muito já se disse do poeta
Que as próprias dores vive de fingir. 
Com tal engenho finge, que completa
A falsa dor com àquela do existir.

Com certo garbo inventa o fingidor
Já que, poeta, não lhe basta à arte
Mentir a dor, de qualquer modo, em dor
Se não expande a voz, se não lhe arde.

Finjamos tudo, e, pois, restemos mudos. 
Não mais de versos por cantar aguarde. 
Nosso silêncio irônico, contudo,
Que finja mesmo até sinceridade.

E quando o verbo se cortar, abrupto,
Habite o coração nossa verdade.