Há muito já se disse do poeta
Que as próprias dores vive de fingir.
Que as próprias dores vive de fingir.
Com tal engenho finge, que completa
A falsa dor com àquela do existir.
Com certo garbo inventa o fingidor
Já que, poeta, não lhe basta à arte
Mentir a dor, de qualquer modo, em dor
Se não expande a voz, se não lhe arde.
Finjamos tudo, e, pois, restemos mudos.
Não mais de versos por cantar aguarde.
Nosso silêncio irônico, contudo,
Que finja mesmo até sinceridade.
E quando o verbo se cortar, abrupto,
Habite o coração nossa verdade.